Pretas na comunicação: encontre se for capaz!

Sou mulher, negra e redatora publicitária. E o que você vai ler agora é mais do que uma matéria, é um relato baseado em fatos reais do que eu vivo e acompanho muitas mulheres vivenciando todos os dias, dentro das agências e fora delas. Ser uma mulher preta é muito mais difícil do que você imagina, porém mais difícil ainda é não se ver. Sim, se você pegar uma revista, a que estiver mais perto agora enquanto você lê esse texto, você vai ver a nossa (não) presença nela. Ou em qualquer outra, a não ser que a propaganda seja focada no público negro. Com qual frequência você visualiza uma família negra naqueles comerciais brasileiros de margarina? Em anúncios de pacotes internacionais de viagens? Em produtos de beleza que não sejam para negras, como cremes corporais ou perfumes caros? Enquanto a comunicação deveria funcionar como ferramenta de aproximação e interação, ela atua como um instrumento eficaz de reforço da desigualdade.   

Não me entendam mal, isso não é ser piegas, é ser realista. Porque eu estou falando de uma verdade que eu vivo desde que me entendo por gente. Mesmo com o racismo e o machismo sendo características estruturais da nossa sociedade patriarcal, e a presença de pessoas brancas sendo inquestionável na comunicação, eu tenho uma boa notícia (digo, perturbadora para alguns): mulheres pretas, como eu, estão lutando para mostrar o seu valor, e o mundo tem que aceitar a nossa presença em um lugar que deveria ser nosso por direito. E é.

Eu trabalho no mercado da comunicação há quase 13 anos, e desde os estágios antes de me formar, poucas vezes tive mais de meia dúzia de colegas negros nas empresas e agências que compõem o meu currículo. Hoje, tentando entrar no mercado americano da publicidade, em todos os formulários de vagas que preencho me perguntam se sou latina ou hispânica, o que é mais uma forma de discriminação (social e salarial - muitos publicitários estrangeiros ganham 30% menos do que os nativos por aqui) mascarada como inclusão. Dizem que números traduzem fatos. Então vamos fazer aqui um rápido recorte quantitativo: o Brasil tem 54% de negros em sua população total, que movimentam mais de R$ 1 trilhão em consumo, mesmo míseros 6% deles se sentindo representados nas propagandas pelas quais são impactados todo santo dia; 71% acha que, se os anúncios tivessem mais afrobrasileiros, eles se identificariam (e comprariam) muito mais. Entre as mulheres, mais de 70% delas estão cansadas de verem as não-negras em destaque, com seus cabelos não-crespos usando produtos cor da pele (de quem?). Focando no profissional, apenas 13% das pessoas que se formam nas universidades brasileiras são negras, e mesmo as mulheres sendo a maioria, elas não conseguem se encaixar nas vagas de trabalho. Ainda nesse contexto, estima-se que, a cada mil funcionários das agências de publicidade no país, apenas 35 são negros, com 6,3% ocupando cargos de alta direção e 4,7% dos cargos gerenciais; no caso das mulheres negras, 1,6% são gerentes e 0,4% estão no quadro de executivos (a cada 548 diretores, 2 são mulheres). A pergunta que fica é: porque as empresas ainda resistem em enfrentar o racismo? Muita coisa precisa mudar, o caminho é longo, porém aberto para ser desbravado quando a empresa assume o desejo em ampliar efetivamente a equidade racial ao invés de apenas maquiar os processos de exclusão.

Como mulher e preta, é ainda impossível acreditar que o mercado (leia-se de trabalho e de  consumo) se importa mais com gênero e raça do que com talento e competência.

Onde está o erro nessa equação, gente? Dentro da criação das agências e dentro do que a criação cria, nos bancos de imagens e no casting (onde a desigualdade racial é discrepante), chegando às telas, revistas e posts: as negras simplesmente não são protagonistas. Isso tudo pode parecer repetitivo. Mas é também retrógrado.

Estamos em 2018, tempo em que, teoricamente, deveríamos ser seres bem mais evoluídos. Mas o preconceito enraizado ainda não consegue abrir espaço para a igualdade. Precisamos entender que a diversidade, plural e maravilhosa, vende. E a verdade também. Dessa realidade excludente, surge o PRETA: para tornar visíveis as mulheres como eu, e talvez como você, que não se reconhecem nos discursos publicitários, que querem ser representadas e representar seus papéis como transformadoras do não-lugar em um merecido-lugar, livre de estereótipos, segregação, objetificação ou vulnerabilidade. E eu, como mulher, preta e redatora, tenho orgulho em dizer que faço parte dessa pequena (grande) revolução.

Dados: Instituto Etnus, Instituto Ethos, Instituto Locomotiva, IBGE

 


Apaixonada pelas palavras, Juliana Lima é redatora publicitária e se aventura pelo mundo fashion como jornalista de moda. É de Beagá, fala 'uai sô, benzadeus!' e tem uma curiosidade sem fim, além de ser conhecida por falar milhões de palavras por minuto — e pensar na mesma velocidade. Você pode encontrá-la também no @juaraujolima.