Entrevista: um papo com Jéssica Gomes, a brasileira escolhida pelo Cannes Lions

Mineira, redatora e militante feminista. Jéssica Gomes, de 24 anos, foi a única brasileira selecionada para fazer parte da edição deste ano do See It, Be It, programa criado em 2014 pelo Festival de Cannes para estimular a participação de criativas em uma indústria que ainda possui muitas barreiras para o trabalho e a representatividade feminina. Conversamos com a publicitária sobre representatividade, oportunidade, planos e sonhos. Confira a conversa na íntegra

Jessica-Gomes-foto.jpg

* * * 

Preta e Ponto: Você foi a primeira mulher fora do eixo RJ-SP a representar o Brasil no See It, Be It e a única brasileira este ano a ser selecionada. Como esse caminho foi percorrido e o que ele representa pra você, como feminista? 

Jéssica Gomes: Bom, tudo começou quando me descobri negra. Passar pela transição capilar foi um processo intenso de aprendizado sobre mim mesma. Foi difícil, doloroso e, por vezes, solitário entender o que estava acontecendo e quem eu era. Mas foi só assim que minha presença era resistência. Ser mulher negra na criação é um privilégio e uma responsabilidade. Preciso lutar para não ser mais uma das poucas. Comecei organizando aqui os encontros do Ladies, Wine & Design e, quanto mais mulheres, histórias e lutas eu conhecia, mais eu me vi num caminho sem volta. Me vi construindo novos caminhos por meio da fala e da escuta, construindo redes de apoio, colocando meu eu no mundo - e vendo uma conexão poderosa acontecer em resposta. Do Ladies, vieram outros projetos, encontros e ideias. Virem também transformações poderosas e uma clareza da importância de compartilhar nossas histórias. Na minha inscrição eu fiz isso: contei minha história. Lembro que a última pergunta da Chloe, embaixadora do programa, foi porque eu queria participar de uma iniciativa focada em ajudar mais mulheres a ocuparem cargos altos (e impulsionarem umas às outras) e eu respondi prontamente: porque essa é a minha luta diária. É pelo que eu tenho lutado. Quero ser a mulher que vai impulsionar muitas. Quando cheguei lá, vi que eu era, de longe, a mais nova da turma - e me senti um pouco insegura por isso, mas logo passou. Entendi ali que não era sobre idade, prêmios ou cargos: era sobre a missão maior, o desejo de mudar a realidade da indústria, agora.


O See It, Be It é um programado que foi criado em 2014 pelo Festival de Cannes para estimular a participação de criativas em uma indústria que é baseada numa política patriarcal e machista. Pelo projeto, criativas de várias partes do mundo são escolhidas para acompanharem o Festival, assistir a palestras, entender os bastidores do evento e também discutir sobre a representatividade das mulheres n as indústria publicitária global. Nesse cenário de diálogos, a representatividade da mulher negra é pauta? 

 Sim! Ter 20 mulheres com 20 bagagens diferentes é o ouro do programa. A gente falou bastante sobre quais mulheres estamos trazendo para o mercado e como é importante pensar na complexidade da diversidade: precisamos de mais mulheres trans, negras, latinas. Precisamos de toda a pluralidade no processo de criação, não só no casting. Precisamos ouvir, muito, porque ainda sabemos pouco sobre as realidades umas das outras. 
 

Você também é cofundadora do Navaranda. Em que contexto esse projeto nasceu? E de que forma ele abraça a questão da mulher negra na comunicação e publicidade? 

Como mencionei antes, quando comecei a promover os encontros do Ladies, Wine & Design aqui, me vi em meio a uma rede de mulheres poderosa. Mas vi também que falar sobre a indústria, sobre carreiras, era só uma parte do problema. E queríamos poder fazer mais. A Navaranda surge da necessidade de falar sobre nossos corpos, nossas dúvidas, carreiras, redes de apoio e todas as esferas que envolvem a vida da mulher. Nos perguntamos todos os dias o que uma mulher precisa para se sentir bem em ser quem é e fazemos o possível para produzir encontros, construir redes e criar conteúdo que converse com mulheres reais, problemas reais, soluções reais. Nós 4, fundadoras, somos mulheres de cor, atuando na indústria da comunicação. E fazemos questão de fazer do nosso conhecimento uma ferramenta de transformção. Seja nos encontros que falamos sobre carreira ou nos trabalhos cotidianos, provocar diálogos é o caminho que encontramos para questionar a falta de representatividade. 

A gente só consegue ser o que consegue ver. O Preta nasceu dessa inquietação, dessa vontade de mudar as estatísticas da invisibilização da mulher negra. Imagino que meninas que estejam começando a carreira na área de comunicação/ publicidade agora e que vejam sua trajetória a levarão como inspiração. Se pudesse, que mensagem você deixaria para elas?

Conte sua história — e acredite que ela importa. Em meio à tanto caos e mudança, ser quem você é, pode ser tão desafiador quanto gratificante. Pode soar clichê, mas não existe ninguém como você nesse mundo e é esse olhar único é que vai abrir horizontes novos para você. Experimente, tente, vá. As pessoas vão continuar repetindo que este não é o seu lugar. Você mesma vai tentar se sabotar. Mas a sensação de saber que você foi lá e fez do jeito que você acredita, que deu o seu melhor, é uma das melhores sensações desse mundo.